"Terra das Ervanárias" é "imagem de marca" na luta de Vale da Trave contra a desertificação

Um painel em madeira anuncia a chegada a Vale da Trave, “Terra das Ervanárias”, lugar da freguesia de Alcanede (Santarém) no limite do Parque Natural das Serras d’Aire e Candeeiros, que procura nos recursos endógenos a revitalização de uma aldeia em declínio. O sinal de que o futuro do lugar estava em perigo foi dado há dois anos, com o encerramento da escola primária (construída pelo povo em 1939) por falta de alunos. “A primeira reacção foi de inconformismo e revolta, depois de impotência, mas as pessoas não desistiram de lutar, à semelhança do passado, em que meteram mãos à obra e construíram a escola”, disse à agência Lusa, Luís Ferreira.

A constituição da Assembleia de Compartes do baldio dos lugares de Vale da Trave, Casal de Além, Covão dos Porcos e Vale de Mar, a que este licenciado em Gestão do Território preside, foi o primeiro passo para a delineação de uma estratégia, que começa a mostrar os primeiros sinais no terreno.

O primeiro deles é a placa com a “imagem de marca” do lugar, Terra das Ervanárias, em referência à tradição de uso das plantas que nascem espontaneamente na zona, mas sobretudo de apanha para venda a produtores de chás, com destaque para a fábrica que localmente produz a marca HappyFlora.

A Américo Duarte Paixão, Importação e Exportação de Ervas Medicinais, proprietária da antiga Ervanária d’Anunciada, em Lisboa, é a principal empregadora deste e dos lugares mais próximos (22 funcionários). A “fábrica”, criada em 1960 depois de duas décadas de colheita de plantas para vender às ervanárias, perdeu o carácter artesanal há pouco mais de um ano, com a construção de um edifício “que obedece a todos os requisitos do ramo alimentar”.

A visita à fábrica, que dispõe já de uma pequena loja de venda dos seus produtos, é um dos pontos incluídos num folheto que visa começar a promover percursos pedestres, que tragam à aldeia grupos de turistas, eventualmente integrados em circuitos por pontos de interesse que estão próximos de Vale da Trave.

É o caso das pegadas de dinossáurios de Vale de Meios, em vias de classificação, do Carsoscópio, Centro de Ciência Viva de Alcanena, situado na nascente do rio Alviela, do castelo de Alcanede, das salinas de Rio Maior e do próprio parque natural. O Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta Algar do Pena, com características únicas no país, é outro dos pontos incluídos no percurso “Vale da Trave, Terra das Ervanárias”.

No pinhal manso, plantado pelos serviços florestais nos anos de 1970, a Assembleia de Compartes quer criar um espaço de paragem do percurso, com um parque de merendas construído a partir

 da pedra de uma antiga pedreira existente no seu interior. A grande diversidade de fauna e flora e as actividades que foram moldando a paisagem local, como as pedreiras de calçada, as cisternas, os muros em pedra, serão outros motivos de interesse, a que os compartes (164 no total) querem associar o artesanato local, feito a partir da serapilheira dos sacos que embalam as plantas para os chás.

A Assembleia de Compartes gere 700 hectares de baldios que antes eram administrados pela Junta de Freguesia de Alcanede, procurando reverter para o lugar o lucro de actividades como o licenciamento das pedreiras, a apanha das pinhas do pinhal, ou a instalação de aerogeradores para produção de energia eólica. “É preciso criar sinergias, desenvolver actividades ligadas ao ambiente, à silvo-pastorícia, ao artesanato. É preciso criar novas actividades, que fixem os jovens, que já são muito poucos”, disse Luís Ferreira à Lusa.

Para o presidente da Assembleia de Compartes, o futuro de Vale da Trave passa pelo Centro Comunitário, administrado pela Associação Juvenil Alf@rroba (nome escolhido da planta espontânea, mas rara na zona, e também da junção dos vocábulos Alfa, letra grega usada nas ciências exactas para designar uma incógnita, e arroba, unidade de medida e símbolo da Internet).

A funcionar na antiga escola primária, ao abrigo de um acordo assinado com a Câmara de Santarém, o Centro Comunitário terá por vocação “produzir e divulgar informação sobre a comunidade para o exterior”, preservando e promovendo a cultura local.

 

O Mirante - Edição de 06-03-2008

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